Capítulo 1
Nesta vida sempre fui uma pessoa rude, desrespeitosa e sem fé. Neste mundo não acreditava em nada, não acreditava no amor, na amizade, na justiça, na ética e muito menos em religião e dogmas.
Via o catolicismo e o protestantismo como cultura ocidental que nada tinham a ver comigo e sabia, também, da existência de outros credos enfadonhos e cheios de falsidades que não dão nenhum sentido à vida.
Mas agora sem saber a razão, espontaneamente, aceitei o budismo me sentindo mais purificado física e mentalmente, sendo hoje extremamente devotado a ele.
Há vínculos inexplicáveis em tudo o que acontece neste mundo e a minha fé no budismo talvez seja por causa de um destes vínculos.
Capítulo 2
A minha busca até encontrar o budismo é uma longa história, complexa como uma peça de teatro em vários atos ou, como um romance, o qual passo a relatar:
Há 25 anos atrás, durante um inverno muito rigoroso eu, sofrendo muito, acometido de várias doenças (câncer, malária, reumatismo) estava morando num remoto vilarejo. Para agravar ainda mais a minha situação, tinha perdido todos os meus bens, não me restando dinheiro algum. Desenganado pela medicina me encontrava quase à beira da morte.
Naquela altura da vida eu era um homem imprestável e solitário que perambulava sem rumo, sem casa e sem família. Eu passava o dia todo deitado dentro de um casebre caindo aos pedaços – mais parecendo um túmulo abandonado –, onde só os meus gemidos de sofrimento quebravam o silêncio.
Certo dia, enquanto a neve caia lá fora e se ouvia o intenso uivar do vento, (estando o tempo carregado e muito nublado), eu congelava imóvel sobre uma cama de bambu, quase sem cobertas. O instinto de sobrevivência me fazia gemer ainda mais alto chamando a atenção de um humilde e honesto senhor que por ali passava. Ele entrou no casebre e enquanto limpava a neve do rosto foi se pondo a par da minha situação e de toda a minha infeliz história, dizendo com naturalidade:
— Não se preocupe! Vou buscar a sua salvação!
— Não é possível! Minhas doenças já não têm cura e além do mais não tenho dinheiro algum.
— "Ele" não vai querer o seu dinheiro, ele é o monge "Despertando-o-mundo".
— Um monge pode curar doenças? E balançando a cabeça com desconfiança continuei:
— Você sabia que minha doença é incurável?
— Quanto mais rara a doença, maior capacidade de curá-la, ele tem. Nesta região, todos sabem quantas pessoas beirando a morte foram salvas por ele. Eu mesmo, tendo sido cego por mais de dez anos, passando por todo tipo de dificuldades, fui curado por ele. Veja! Meus olhos, agora, têm tanta vida quanto os seus.
— Que coisa incrível! Então ele é um Buda vivo? Onde ele mora? É muito longe daqui?
— Por ora ele está num templo em ruínas que fica a uns três quilômetros de distância.
Esta sua resposta me desanimou.
— Com tanta neve e o vento cortante lá fora, como ele poderia vir até aqui?
— Fique tranquilo! Os monges são compassivos e têm coração de bodisatva. Vou buscá-lo e certamente ele virá.
— Tudo bem! Peço-lhe então, por favor, vá buscá-lo o quanto antes!
— Claro! A sua situação é bem grave e se você não se tratar o quanto antes, poderá morrer. Como ele é um peregrino, se eu não for buscá-lo imediatamente, ele poderá ir embora.
Em seguida, o senhor se levantou, abriu a porta ajeitando o gorro e levantando a gola e saiu sob a neve e o vento cortante.
Era difícil suportar tamanha fome e tontura, uma vez que já era quase meio dia e eu ainda não tinha comido nada. Gemendo intensamente, eu mais parecia um cão uivando.
Do lado de fora o vento rugia e era tanta a neve que parecia que o mundo ia acabar.
Passaram-se 15 minutos...
Meia hora se foi...
Uma hora se passou...
Quanto mais o tempo passava, mais eu perdia as esperanças, pensando: — Acho que o monge não vem mais, ou então, ele pode ter abandonado o templo em ruínas, continuando a sua jornada; aquele senhor já idoso pode ter se perdido ou mesmo ter se desequilibrado e caído num barranco...
Às duas horas da tarde, o milagre aconteceu! Lá fora a neve já se acumulava na altura dos joelhos quando o senhor entrou com o monge no casebre. Os dois mais pareciam bonecos de neve!
— Demoramos a chegar! Disse o velhinho esbaforido.
— Chegaram a tempo! Vocês andaram tanto que nem sei como lhes agradecer. Respondi com dificuldade, fazendo um esforço enorme para me levantar, mas sem sucesso.
— Poderíamos ter chegado mais cedo, mas o mestre teve que cavar a neve até encontrar a erva certa para a sua cura.
Ouvindo estas palavras, tanta era a minha emoção que lágrimas rolaram pelo meu rosto. Enxugando as lágrimas olhei para o meu salvador à minha frente e naquele momento pude ver o rosto do mestre, já sem a neve. Teria sido melhor não ter olhado para ele, pois ao fitá-lo, fiquei estarrecido.
— Céus! Este monge "Despertando-o-mundo"... Foi ele quem roubou a minha noiva! Fiquei desesperado e em pânico, com medo de que ele quisesse me matar. Mas diante do inimigo eu era apenas um doente fragilizado! Como escapar?
Quieto, eu olhava para o monge. Seu manto era cinzento e roto, atado com um cinto de sisal e sua cabeça descoberta mostrava, em seu topo, as doze marcas da ordenação. Sapatilhas gastas e envelhecidas exibiam pés sem meias. Seu largo manto trazia marcas deixadas pelos anos e as sapatilhas cheias de lama denunciavam a sua simplicidade.
O monge "Despertando-o-mundo", sequer reparou em mim. Sentou-se num canto úmido totalmente focado na preparação do medicamento, tendo no rosto uma expressão de amabilidade e um vívido brilho no olhar.
O velhinho ao lado do monge, esfregando as mãos, de tempos em tempos, olhava para ele com respeito querendo ajudá-lo, mas sem saber como.
O monge pareceu não ter me reconhecido, o que me dava certo alívio. Seus movimentos misteriosos, no entanto, me inquietavam, pois ele preparava a poção sem ter lavado as mãos, ora coçando a cabeça, ora coçando o corpo e pior, ainda usava as mãos para esfregar os dedos dos pés. Por fim, colocou o preparado em sua boca mastigando-o ruidosamente e formando uma espuma branca, que lhe saia pelos cantos da boca. Era repugnante!
Depois de ter mascado o preparado ele o cuspiu no chão e separou três bolinhas, tiradas do piso barrento, as quais ele me deu, dizendo para tomar uma por dia. Terminado isso ele se levantou e preparava-se para ir embora, quando o velhinho lhe perguntou:
— Mestre! No terceiro dia, depois que ele tiver tomado todas as bolinhas, o senhor terá que voltar aqui?
— Não! Não precisarei voltar. Esse remédio será suficiente para curar todas as suas doenças. Dito isso, ele saiu sob a neve que continuava a cair.
Após a sua saída, fiquei cheio de dúvidas estranhando aquilo tudo e, para dizer a verdade, eu não tinha coragem de tomar aquele remédio! Minha doença era incurável e por mais de dez anos eu tomei todo tipo de remédio, sendo tratado por famosos médicos, que não conseguiram a minha cura e, assim, eu me perguntava se aquelas três bolinhas poderiam salvar a minha vida. Tudo aquilo me parecia uma grande ficção. Porém o velhinho, que era uma pessoa muito bondosa, me disse que um jovem lenhador, que tinha sido picado por uma cobra, fora curado pelo monge "Despertando-o-mundo". Ele fez falar, uma criança que era muda de nascença; ele também curou uma senhora idosa, que era paralítica e esclerosada. Sendo assim convencido, acabei cedendo e engoli uma bolinha. Não sei quanto tempo depois de tê-la tomado, adormeci tranquilamente.
Capítulo 3
Depois que o monge "Despertando-o-mundo" foi embora, sua figura não saia da minha cabeça. Acordado, na cama, revivi todo o passado, cena por cena.
Tudo acontecera em 1927, na velha cidade de Yu, no sudeste da China. Naquela época Jiang Ping ainda não era monge, era um professor muito famoso e com profundos conhecimentos literários, e além de estudar literatura era um excelente pintor, sendo um privilégio ser dono de uma das suas obras!
Certa vez, minha prima Wen Qing veio me pedir que eu a levasse para conhecer Jiang Ping. Como ela (mulher de rara beleza, meiga e gentil) era minha noiva e sabendo de sua paixão por literatura, música e pintura, seria natural que eu me prontificasse a acompanhá-la.
No primeiro encontro que tivemos com Jiang Ping, logo percebi que ele tinha um certo ar de intelectual refinado, encantando a todos ao seu redor.
A conversa entre ambos foi se desenrolando alegremente, indo de Bach a Beethoven, de Shakespeare a Tolstói, de Platão a Schopenhauer. Como sou engenheiro e nada entendo de arte, literatura ou filosofia, me senti a margem do que falavam e, sentado num banco frio, fiquei fumando sem parar, bem contrariado, enquanto eles conversavam.
A certa altura, a prima, toda sorrisos, lhe disse:
— Professor Jiang, o senhor tem uma mão divina para pintar ameixeiras e eu sou apaixonada por este tipo de pintura. O senhor poderia pintar uma para mim?
— Certamente pintarei uma e lhe enviarei. Respondeu Jiang Ping todo amável.
— Não se incomode, eu mesma virei buscá-la, pois gostaria muito de pedir sua opinião sobre alguns poemas.
— É muita bondade sua, pois não sou um especialista nesse assunto. Contudo, se a senhorita tem mesmo interesse em poemas, poderemos trocar ideias sobre alguns.
Com toda aquela afinidade, ela e Jiang Ping, passaram a se encontrar regularmente e a atração que sentiram um pelo outro foi crescendo cada vez mais.
Tudo aquilo me enchia de raiva, afinal a prima era minha noiva e eu me sentia no direito de controlar seus passos. Mas aquela menina dócil e meiga tinha, no entanto, um temperamento forte e, quanto mais eu tentava controlá-la, mais ela se rebelava.
Certo dia, perguntei a ela:
— Por que você esta se encontrando com Jiang?
— Gosto dele! É um jovem educado e talentoso. Foi essa a sua resposta cheia de convicção.
— Pois bem, a partir de hoje você está proibida de se encontrar com ele.
— Você não tem esse direito!
— Ora! Não se esqueça, você é a minha noiva!
— Se você não aceita isso, vamos desmanchar o noivado agora mesmo!
Como ela era muito teimosa e obstinada eu, por vingança, cheio de raiva, ordenei ao diretor da escola, onde ele lecionava, para que o demitisse. Como eu fazia parte da elite local, sendo muito rico e mantenedor daquela escola, para mim era fácil demitir um professorzinho.
Mesmo ele tendo sido demitido, eles continuaram a se corresponder e seu relacionamento foi ficando cada vez mais sério, a ponto de pensarem em casamento. Como era possível um simples professor ter tido a coragem de roubar a minha noiva, me envergonhando diante de toda a sociedade? Quanto mais eu pensava nisso, mais ia ficando com raiva, o que me obrigou a lhe dar uma boa lição.
Na primeira vez, para assustá-lo, contratei o serviço de um bando de marginais para queimar a sua casa e matar toda a sua criação.
Na segunda vez, paguei um presidiário para que o denunciasse como cúmplice de seus crimes. Desta vez deu certo! Jiang Ping foi preso e condenado a uma dura pena.
A partir dai me senti vingado! Gostaria muito de ter assistido a condenação de Jiang Ping, porém naquela ocasião meu pai me escrevera exigindo que eu fosse à capital para ser nomeado Secretário Regional de Finanças, pois ele era Deputado Provincial e Secretário Geral de Finanças e além do mais, meu tio era o Secretário Geral Provincial. Como bem diz o ditado chinês: "quem tem conhecido no governo, cargo fácil consegue" Esta é a mais pura verdade! Pena que eu nada entendia de finanças ou sequer por elas me interessasse, e assim, não podendo desobedecê-lo, me conformei.
Sendo de família rica e poderosa, eu podia gastar muito e fazer o que bem entendesse, mas um cargo político me roubava a liberdade, uma vez que, eu ficava preso às obrigações por ele impostas. Por sorte a capital tinha muitos atrativos, com diversão por toda a parte e, assim, minha vida transcorria agradavelmente. Após o expediente eu me divertia buscando fortes emoções, e foi desta maneira que em certa ocasião, numa festa, encontrei Lu Ming, uma colega de faculdade. Ela era jovem, linda, comunicativa e uma destacada aluna do curso de línguas. Nos encontramos, nos apaixonamos e nos casamos.
No que diz respeito à prima e Jiang Ping, eles ficaram esquecidos no passado.
Até aqui relatei o meu vínculo de ódio com Jiang Ping, sem imaginar que mais de vinte anos depois eu o reencontraria, agora como um monge. São realmente imprevisíveis as voltas que o mundo dá!
Capítulo 4
Aquelas três bolinhas foram miraculosas, pois três dias após tê-las tomado, eu estava totalmente curado!
A vida é cheia de mistérios e milagres. Eu tinha tantas doenças, especialmente, o câncer que na época era incurável, não existindo sequer o tratamento radioativo, para ele. Era uma doença que, com certeza, levava à morte! Mas este monge que não tomava temperatura, não media o pulso, não fazia cirurgia..., só me fazendo tomar três bolinhas conseguiu curar todas as minhas doenças! Além do mais, aparentemente, ele nem usara preciosas e raras ervas medicinais, dando a impressão de ser um matinho qualquer, destes que dão por toda parte, porém nas mãos do monge depois de amassado, mastigado e em seguida cuspido, tornou-se um remédio miraculoso. Se isto não era um mistério, um milagre, o que mais poderia ser?
Não consigo imaginar como meu inimigo se tornara agora meu salvador! Assim, para pessoalmente agradecer ao monge "Despertando-o-mundo", pelo fato dele ter me curado, salvando a minha vida, e para poder lhe pedir perdão, decidi procurá-lo.
A neve acumulada do lado de fora do casebre já derretera e as montanhas, os campos, as pastagens voltavam a exibir uma coloração esverdeada. Em lugar do céu escuro dos últimos dias, o Sol voltava a brilhar, assim apesar de estarmos ainda no inverno, já se respirava um ar primaveril.
Seguindo a orientação do velhinho fui procurar o templo em ruínas, onde o monge costumava ficar. O caminho era muito difícil, tive de passar por bosques, atravessar riachos, contornar cemitério e, depois de mais de uma hora de dura caminhada, finalmente me deparei com o morro onde ficava o templo. Ele não era muito alto, porém o caminho era sinuoso, sem escadas, me obrigando a subir em meio a musgos e mato. Neste momento pude sentir como a minha saúde estava melhor, mais até do que antes de eu ter adoecido. Eu nunca tivera tamanho vigor! Logo cheguei ao topo do morro, onde estava o templo.
Podia-se perceber, olhando ao redor, que aquele era um local isolado, raramente visitado, onde não se via ninguém. Ali havia várias construções abandonadas. No desgastado letreiro do portal lia-se em quatro grandes caracteres: "Antigo Templo da Nuvem Cor do Céu", numa caligrafia de traços firmes, que certamente era de um grande calígrafo. Pena não haver nenhum ser vivo nas redondezas, e as edificações já estarem tão arruinadas. Esse ar de abandono dava uma sensação de solidão que enregelava o coração!
Dei duas voltas pelo local e não consegui encontrar o monge que me salvara. Continuei procurando com mais atenção, até que cheguei às vizinhanças de uma enorme árvore que parecia alçar aos céus e..., lá estava ele! O monge "Despertando-o-mundo" estava sentado sob esta árvore, com as pernas cruzadas em posição de lótus, tendo um rosário na mão e um semblante sereno, parecendo estar meditando.
Fiquei à distância com medo de incomodá-lo, mas passada aproximadamente uma hora, ele mexeu as sobrancelhas e disse tranquilamente: "O que você veio fazer aqui?".
Ele não tinha olhado para mim, estava de olhos fechados e mesmo assim sabia que eu ali estava. Respondi, imediatamente: "O senhor salvou a minha vida, eu vim para lhe agradecer".
Ouvindo estas palavras ele gargalhou feito um louco e pondo-se de pé num salto disse: "Me desculpe, estou muito ocupado! Hoje à tarde tenho alguns doentes que preciso visitar."
— Mestre! Posso ir com o senhor?
— Vou para uma região onde se alastra uma epidemia. Você não deve ir para lá!
Ouvindo a palavra epidemia senti um calafrio e o meu coração disparou! E eu lhe disse:
— Posso, pelo menos, esperá-lo aqui, até o senhor voltar?
— Eu não tenho morada fixa, nem sei se voltarei para cá, você quer me esperar para quê?
— Eu quero ser monge e gostaria que o senhor fosse o meu mestre.
Ele voltou a gargalhar feito um louco e de forma tão estridente que até parecia o badalar de um sino. Ele retrucou:
— Como você poderia se tornar um monge se ainda está preso ao mundo de ilusões?
— Não, mestre! Minha mente já se afastou do mundo de ilusões, não tenho mais apego a esta vida de desejos desenfreados!
A seguir lhe contei, do começo ao fim, toda a minha infeliz trajetória de vida. Ao terminar de contá-la, eu lhe disse:
— Brancas neves, vida de cão, ilusória existência impermanente, fortuna é nuvem e fumaça.
Continuei:
— Chão de desejos, impurezas que mancham o céu, este é um mundo de máculas e maldades. Disso tudo, estou farto!
Completei, então:
— O mundo está repleto de crueldade, disputa, falsidade e enganações. Tão profundos são estes males, que já não se pode encontrar um pedaço sequer de terra pura.
Desta vez ele não riu. Olhou muito tempo para mim e finalmente, meneando a cabeça disse:
— Você está errado. Este mundo tem dois lados: um, é belo e iluminado, o outro, é feio e escuro. Você ainda não cortou os seus vínculos com o mundo de ilusões, você terá que viver nele ainda por um bom tempo. Caso queira mesmo se tornar um monge, vai ter que esperar muito mais. Nesta atual existência, ainda iremos nos encontrar por mais três vezes.
Surpreso, lhe perguntei:
— O senhor pode prever o futuro?
— Claro que não! Sou apenas um monge louco que fala o que lhe vem à cabeça! Terminando de falar gargalhou mais um pouco, pegou o seu cajado virou-se e foi se afastando.
Perguntei-lhe, rapidamente:
— Mestre, o senhor está indo cuidar de doentes, posso, pelo menos, acompanhá-lo até o sopé do morro?
Ele não me deu atenção demonstrando, com isso, que eu falava demais. Assim, eu o acompanhei em silêncio.
Enquanto descíamos o morro, aconteceram dois episódios espantosos. Mesmo quando os relembro agora, ainda me causam assombro:
O primeiro foi que, no meio da descida, havia uma mexeriqueira carregada de frutos dourado-avermelhados tão grandes quanto uma maçã. O monge "Despertando-o-mundo" foi até a árvore, esticou o braço, apanhou uma mexerica e a comeu com casca e tudo.
Eu tentei imitá-lo, querendo também pegar uma, mas a árvore tinha mais de seis metros de altura e eu não tinha como alcançar os frutos tão lá no alto. Não pude entender como ele conseguira pegar a mexerica!
O segundo episódio foi quando, do meio do mato e das pedras, apareceu uma grande serpente venenosa de aspecto agressivo. O monge "Despertando-o-mundo", que estava descalço, simplesmente pisou na víbora, que sequer esboçou um bote.
Chegando ao sopé do morro, não aguentando de curiosidade em relação às atitudes inusitadas deste monge louco, quis testá-lo:
— Mestre o senhor não me reconheceu?
— Eu não sou cego! É claro que eu te reconheci. Você era um ricaço da cidade de Yu e seu nome é Ge Ying Liang.
Fiquei boquiaberto: Ele me reconhecera!
Levei um bom tempo tentando me acalmar, pois estava muito receoso e aflito. Perguntei, então, a ele:
— Já que o senhor me reconheceu, lembrando de todo o mal que lhe causei, por que não pensou em se vingar de mim?
— Monges só salvam vidas, não entendem o que seja inimizade. Falou isso com um leve sorrido no rosto de pura amabilidade!
— Eu o prejudiquei tanto no passado, e o senhor, mesmo assim, não tem ódio de mim?
— Claro que eu te odiei, querendo até te ver morto, mas eu me tornei monge. Como monge, eu te perdoei, assim como o faria com qualquer ser senciente.
— Mestre quão grandiosa é a sua compaixão!
— Ela surge quando se segue o caminho que o Buda nos ensina.
Neste momento, de repente, me lembrei da prima Wen Qing e perguntei a ele:
— Por que o senhor decidiu ser este errante monge que pratica a mendicância? Mas o que aconteceu com a Wen Qing?
O monge "Despertando-o-mundo" ao ouvir a pergunta deteve seus passos e abaixando a cabeça, com um olhar melancólico e sem vida me respondeu:
— Ela morreu em circunstâncias muito tristes.
— Como? Tão jovem! Morta?
— Ela era muito frágil, não teve forças para suportar as amarguras pelas quais passava, tanto que, em menos de três meses fora da sua cidade e longe da casa de seus pais, adoeceu caindo de cama para nunca mais se levantar.
— Mas por que vocês tiveram que deixar a cidade em que moravam?
— Como poderíamos não nos afastar? Retrucou o monge "Despertando-o-mundo", que continuou:
— Embora você tenha ido para a capital, você mandou bandidos queimarem a minha casa e, depois disso os seus capangas continuaram a nos perseguir.
Eu estava arrependido e muito envergonhado. Neste mundo, sou apenas um miserável ignorante de coração empedernido, repleto de maldade! Pensando na morte da prima Wen Qing lembrei-me que fora eu que colocara o monge "Despertando-o-mundo" na cadeia e então lhe perguntei:
— Mestre, o senhor foi preso e condenado à pena de morte, como o senhor ainda está aqui?
— Até mesmo os assassinos e incendiários, por vezes, são humanos e capazes de demonstrar compaixão. Na véspera do cumprimento da minha sentença, os seus capangas tiveram consciência e confessaram seus crimes inocentando-me, o que salvou a minha vida.
Fiquei ainda mais envergonhado e arrependido! Eu, que nascera numa família rica e de renome, tendo recebido excelente educação, agi pior que um bandido. Caí de joelhos implorando o perdão do monge.
Capítulo 5
O monge "Despertando-o-mundo" deixou de parecer ser louco, pois, amorosamente, ele me levantou e com carinho me perguntou:
— O que você veio fazer nesta terra de ninguém? Poderia me dizer o que lhe aconteceu?
Com um profundo suspiro eu respondi que era uma longa história, que mais parecia um pesadelo e passei a contá-la:
— A primeira parte da minha vida o senhor já conhece, eu não preciso repetir. Começarei a lhe contar a partir do momento em que fui para a capital, nomeado para um cargo público. Tudo dava certo para mim porque meu pai e meu tio me protegiam. Levando uma vida de conforto, luxuosa até, eu era um boêmio indolente, nem um pouco familiarizado com as exigências do cargo que assumira. Nos primeiros dias dessa nova etapa da minha vida, ainda me lembrava da prima Wen Qing, sentindo ódio do senhor por tê-la tomado de mim, mas tudo mudou repentinamente, pois em poucos dias encontrei alguém com quem logo namorei e me casei. Vocês? Ah! Ficaram no esquecimento! Depois do casamento começaram as minhas preocupações porque minha esposa, Lu Ming, era mimada e egoísta, além de ser vaidosa e fútil. Ela se casara comigo por causa da fortuna e do status social da minha família. O que mais me magoava era a promiscuidade dela que a levava a se relacionar com qualquer um, a tal ponto que, não conseguindo mais suportar aquela situação, me divorciei, cortando qualquer tipo de relacionamento que pudéssemos ter.
— Ter uma esposa negligente e acima de tudo infiel, é realmente muito triste! Comentou o monge com pena de mim.
— Sem dúvida! Porém, a tragédia da minha vida começou depois do meu divórcio e relembrando hoje, fico realmente envergonhado. Meu pai não foi um bom pai e eu não fui um bom filho, coisas da hereditariedade. Na capital, meu pai, por ser muito mulherengo, sempre tinha problemas com mulheres e eu, tendo a quem puxar, se não estivesse num bar, estava num cabaré, e em qualquer um destes lugares sempre gastava dinheiro público, não o meu próprio. Como meu pai era um corrupto Secretário Geral de Finanças e eu um Secretário Regional, era muito fácil, para nós dois, desviar dinheiro público. Quanto mais o tempo passava, mais roubávamos e por fim, acabamos desmascarados, julgados e condenados.
O monge "Despertando-o-mundo" comentou:
— Isto é a retribuição cármica descrita nos sutras, pois cada um colhe o fruto de sofrimento da semente cármica que plantou!
— É exatamente isso! Foi retribuição cármica! Meu pai cometeu muitos erros que se voltaram contra ele, tendo sido condenado à prisão perpétua. Eu por minha vez, depois de alguns anos na cadeia, acabei sendo libertado. Voltei para a minha cidade sem saber que nossas propriedades tinham sido vendidas e toda a nossa fortuna se evaporara, nossas dívidas monstruosas se acumulavam e, como se não bastasse, meus irmãos brigavam entre si, numa discórdia total, destruindo a nossa família.
O monge, suspirando enquanto meneava a cabeça falou:
— Família em discórdia e disputa entre irmãos é a coisa mais cruel do mundo.
— Depois disso, não preciso contar mais nada. Sem família e sem ter a quem recorrer, passei a vaguear pelo mundo, sem rumo.
— Agora conheço a sua vida em detalhes!
Enquanto conversávamos, não nos demos conta que já tínhamos atravessado bosques, riachos, contornado o cemitério, chegando a uma aldeia. Nesta região eram comuns as epidemias, talvez porque nela houvesse muita maldade. Sentia-se no ar toda a angústia do sofrimento daquela gente.
O monge "Despertando-o-mundo" pediu para que eu ali me detivesse. Parei ali mesmo observando o monge que ia, a passos largos, em direção ao centro da aldeia. Via nele o espírito de determinação do Buda por querer, com compaixão, salvar os seres, livrando-os do sofrimento.
Capitulo 6
Despedi-me do monge "Despertando-o-mundo" para continuar sozinho na minha vida errante. Ele tinha razão pois o meu vínculo com o mundo das ilusões não se rompera ainda. Depois disso, muitas coisas incomuns foram acontecendo na minha vida.
O monge dissera que nós nos encontraríamos ainda por mais três vezes. Acredito que tenha sido uma premonição correta, pois nos dez anos que se seguiram, nos reencontramos mais duas vezes, mas por me faltar sabedoria, nessas duas vezes sequer toquei no assunto de me tornar monge.
Por que trai a minha vontade e a minha intenção? Por dois motivos, simplesmente. Na primeira vez em que o reencontrei, em 1947, eu vivia em Nanquim e naquela ocasião era recém-casado com Yi Ju, minha segunda mulher. Ela era muito amorosa o que nos fazia bem felizes e é claro que, estando tão boa a minha vida, não me passava pela cabeça querer ser monge. Nosso segundo encontro aconteceu em Hu Nang, quando eu ocupava mais uma vez um cargo de Secretário de Finanças, agora vivendo numa mansão, tendo à minha disposição carros luxuosos e toda a mordomia do meu emprego o que, certamente, não me deixava pensar em ser um monge.
Vivo agora em Taiwan e já se passaram mais dez anos. Estou perto dos meus 60 anos, já faz muito tempo que perdi o meu cargo público. Yi Ju ficou na China Continental e dela não tive mais notícias, não sei, sequer, se ela está viva ou morta. Olhando para o passado é como se já estivéssemos separados há muitas vidas! Mais uma vez o sofrimento tem sido minha companhia constante.
Agora, finalmente desperto, reconhecendo o mundo ilusório em que sempre vivi, passo os dias na expectativa do meu terceiro reencontro com o monge "Despertando-o-mundo". A minha esperança é que ele me conduza para além deste mundo cruel, à Terra Pura do Buda onde em profunda concentração eu poderei purificar corpo e mente. Porém, já estou em Taiwan há mais de dez anos e não tenho o menor indício de onde ele possa estar. Será que meu vínculo com este mundo de ilusões ainda não acabou?
Vertida do livro em chinês Mestre Hsin Ting Contando Histórias, Editora Gandha, Taipé, 2008.
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