Os Três Selos do Darma

Para os budis­tas, ver­da­des pro­fun­das são dota­das de qua­tro característi­cas bási­cas:

  • são uni­ver­sais;
  • são neces­sá­rias ou ine­vi­tá­veis;
  • são ver­da­dei­ras no pas­sa­do;
  • são ver­da­dei­ras no futu­ro.

 

Todos os seres huma­nos vão mor­rer – e esta é uma ver­da­de pro­fun­da, por­que se apli­ca não somen­te a chi­ne­ses, india­nos ou aus­tra­lia­nos, mas a todas as pes­soas em todos os tem­pos.A morte é uni­ver­sal e ine­vi­tá­vel, foi assim no pas­sa­do e con­ti­nua­rá a ser assim no futu­ro.

Os Três Selos do Darma possuem as qua­tro carac­te­rís­ti­cas de ver­da­des profundas: elas são universais, necessárias ou inevitáveis, verdadeiras no passado e verdadeiras no futuro. Os Três Selos do Darma são fundamentais para o budismo e são uma das razões pelas quais algu­mas pes­soas tomam o budis­mo como filo­so­fia, e não como religião.

 

As Verdades Profundas do Darma

Não é neces­sá­rio ter fé para com­preen­der os Três Selos do Darma. Podemos compro­vá-los por nós mes­mos, por meio da pon­de­ra­ção e da observa­ção. Os Três Selos do Darma são:

  • imper­ma­nên­cia;
  • “não eu”;
  • nir­va­na.

 

Trata-se de ver­da­des pro­fun­das, e são cha­ma­das de “Selos do Darma” por­que tudo leva seu tim­bre, como se fosse “carim­ba­do” com eles. Não exis­te nada que não apresen­te essas carac­te­rís­ti­cas de ver­da­de pro­fun­da. Os budistas tam­bém os cha­mam de “Selos do Darma” por­que são seme­lhan­tes aos selos ofi­ciais que com­pro­vam a veracidade dos docu­men­tos, ates­tan­do não serem fal­sos.

Se uma supos­ta “ver­da­de” con­tra­dis­ser os Três Selos do Darma, não pode­rá ser um ensi­na­men­to autên­ti­co do Buda Shakyamuni. Uma “ver­da­de” que não for timbrada com todos os Três Selos do Darma não pode ser verdade. Se o pró­prio Buda tives­se dito algu­ma coisa que con­fli­tas­se com os Três Selos do Darma, essa “ver­da­de” não pode­ria ser ver­da­deira.

Pelo mesmo racio­cí­nio, qual­quer ver­da­de que venha estam­pa­da com todos os Três Selos do Darma é ver­da­dei­ra, quer tenha sido dita por um Buda, quer não. Os Três Selos do Darma são tão fun­da­men­tais ao budis­mo que se pode até mesmo dizer que qual­quer ver­da­de que osten­te os Três Selos do Darma é uma ver­da­de budis­ta, é budis­mo autêntico e pode ser con­si­de­ra­da ele­men­to do Darma.

O sen­ti­do e o sig­ni­fi­ca­do dos Três Selos do Darma são seme­lhan­tes aos da Gênese Condicionada, que foi dis­cu­ti­da no capí­tu­lo específico. Os Três Selos do Darma são uma outra forma de ver as ver­da­des fun­da­men­tais à rea­li­da­de. Por isso, sua com­preen­são permi­te expan­dir o enten­di­men­to da Gênese Condicionada e da rea­li­da­de.

 

A ver­da­de da imper­ma­nên­cia

O Primeiro Selo do Darma diz que todos os fenô­me­nos são impermanen­tes. Ou seja, todos os fenô­me­nos mudam, nada per­ma­ne­ce o mesmo. Todos os fenô­me­nos interagem cons­tan­te­men­te uns com os ­outros, sem­pre se influen­cian­do mutua­men­te e todo o tempo levan­do a mudanças. O Primeiro Selo do Darma tam­bém diz que todo e qual­quer fenô­me­no está sem­pre se trans­for­man­do, de momen­to a momen­to.

Por exem­plo, os seres nas­cem, adoe­cem, enve­lhe­cem e mor­rem. O meio ambien­te no mundo todo muda de esta­ção para esta­ção e de ano para ano. As estre­las nas­cem, permanecem e mor­rem. Pensamentos nas­cem, permanecem e mor­rem. Tudo é assim: todo e qual­quer fenô­me­no nasce, permanece e morre. A cada momen­to, o mundo dos fenô­me­nos movimen­ta-se pelos três está­gios do nas­cer, permanecer e mor­rer. Nada per­ma­ne­ce igual. Nada é per­ma­nen­te. Este é o Primeiro Selo do Darma.

De acor­do com os ­sutras budis­tas há dois tipos bási­cos de imper­ma­nên­cia:

 

  • momen­tâ­nea;
  • perió­di­ca.

 

Impermanência momentânea. No budis­mo, a mais ínfi­ma uni­da­de de tempo é denomina­da “um momen­to”. Há dife­ren­tes for­mas de se ava­liar um momen­to, mas ele é sem­pre con­ce­bi­do como um perío­do de tempo extre­ma­men­te curto.

O Comentários sobre o Sutra Avatamsaka diz: “Um momen­to dura o tempo de um pen­sa­men­to. Um sim­ples esta­lar de dedos con­tém ses­sen­ta momen­tos”. Segundo o Shastra Abhidharma-maha­vib­ha­sha: “Em um dia há 6.400.099.980 momen­tos, duran­te os quais cada um dos cinco componentes físi­cos e men­tais da exis­tên­cia sur­gem e desaparecem”. De acor­do com o Sutra da Chuva de Tesouros: “A mente ilu­di­da é como a água corrente, fluindo incessantemente; é como relâm­pa­gos que se sucedem ininterruptamente”.

O Buda disse que nossa mente e nos­sas per­cep­ções estão em cons­tan­te mudan­ça de um momen­to para o seguinte. Não é ape­nas a mente que muda, mas tam­bém o corpo e todas as ­outras coi­sas do uni­ver­so trans­for­mam-se a cada momen­to.

Impermanência periódica. A imper­ma­nên­cia perió­di­ca refe­re-se ao fato de que os fenôme­nos não apenas pas­sam de um esta­do para outro, mas real­men­te se transfor­mam sem ces­sar e a tal ponto que, ­depois de lon­­gos perío­dos de tempo, nenhum de seus aspec­tos terá permanecido o mesmo. A imper­ma­nên­cia perió­di­ca é o acú­mu­lo de “imper­ma­nên­cias momen­tâ­neas”.

É impor­tan­te com­preen­der o Primeiro Selo do Darma, por­que, reco­nhe­cen­do a bre­vi­da­de da vida e a imper­ma­nên­cia de todas as situa­ções, nos sentiremos motiva­dos a mer­gu­lhar ainda mais pro­fun­da­men­te nas ver­da­des do budis­mo. A imper­ma­nên­cia não deve nos ame­dron­tar, mas nos ins­pi­rar a valo­ri­zar nosso tempo na Terra e nos fazer sen­tir gra­tos por­que, por mais difí­cil que seja levar uma vida boa, sem­pre vale a pena ten­tar.

O Sutra do Grande Nirvana diz: “Todas as coi­sas são imper­ma­nen­tes. A união nascida do amor inevitavelmente redundará em separação”. O reco­nhe­ci­men­to da impermanên­cia deve ins­pi­rar em nós o dese­jo de aju­dar todos os seres a perceberem, junto conos­co, que a bele­za e a per­fei­ção do Buda se encon­tram no interior de cada um.

 

O que foi reu­ni­do deve se dis­per­sar, o que está no alto deve cair, aque­les que se tor­na­ram companhei­ros devem se sepa­rar e aqui­lo que nas­ceu deve mor­rer.

Agamas

 

A ver­da­de do “não eu”

Todas as coi­sas são imper­ma­nen­tes e, além disso, care­cem de natu­re­za própria. Não ter natu­re­za própria sig­ni­fi­ca que elas depen­dem de ­outras coi­sas para exis­tir. Nenhuma delas é independente ou capaz de exis­tir sem ­outras coi­sas. A pala­vra “coi­sas” utili­za­da nes­sas fra­ses refe­re-se a todos os fenô­me­nos, abs­tra­tos ou con­cre­tos; todos os even­tos; todas as ações men­tais; todas as leis; toda e qual­quer coisa que possa ser imagina­da.

Afirmar que nada tem natu­re­za indi­vi­dual equi­va­le a dizer que nada tem nenhum atri­bu­to que per­du­re por longos perío­dos de tempo. Não exis­te uma “natu­re­za” ou essência que per­ma­ne­ça sem­pre a mesma em coisa alguma nem em lugar ­nenhum. Se a “natureza” de algo não per­ma­ne­ce a mesma, como pode ser real­men­te con­si­de­ra­da uma natureza? Tudo um dia muda; por­tan­to, não se pode dizer que haja uma “natureza” em nada, muito menos uma natu­re­za indi­vi­dual.

Este Segundo Selo do Darma atin­ge o cerne da psi­co­lo­gia huma­na. Você pode dizer que nada tem uma essên­cia, mas pro­va­vel­men­te age e pensa como se acre­di­tas­se no contrário. Os ­padrões de pen­sa­men­to huma­no geral­men­te gra­vi­tam em dire­ção ao absoluto; as coi­sas são como são, sem­pre foram e sem­pre serão assim. Coisas sóli­das nos pare­cem per­ma­nen­tes. Nosso sen­so de “eu” pare­ce-nos imu­tá­vel. “Eu” sou “eu” e “eu” con­ti­nua­rei assim. Minha alma é eter­na.

A ver­da­de é que “nós” esta­mos em cons­tan­te trans­for­ma­ção, da mesma manei­ra que tudo o mais. Não são somen­te as coi­sas que não têm natureza própria: nós tam­pou­co temos. A maio­ria das reli­giões do mundo afirma o opos­to, sustentando que um “deus” abso­lu­to, eter­no e total­men­te per­fei­to criou os seres huma­nos e sua alma eter­na.

O budis­mo nega a natu­re­za indi­vi­dual de duas maneiras:

 

Não existe “eu” nos seres humanos. As pes­soas são em geral muito apega­das ao corpo, o que as leva a acre­di­tar que exis­ta uma essên­cia ou natu­re­za abso­lu­ta em seu inte­rior que é seu “ver­da­dei­ro” eu. O Buda disse que o corpo é sim­ples­men­te uma mani­fes­ta­ção do carma, uma ilu­são cau­sa­da por um ajuntamen­to pas­sa­gei­ro de ele­men­tos físi­cos e men­tais da exis­tên­cia. O corpo, assim como uma casa, não tem natu­re­za própria. Uma casa é cons­ti­tuí­da de ­várias par­tes que lhe con­fe­rem uma forma, exa­ta­men­te como o corpo. Assim que essas par­tes são desa­gre­ga­das, não se encon­tra natureza própria nenhu­ma.

Nenhum fenômeno é provido de natureza individual. Assim como os seres humanos, todos os fenô­me­nos não tem natureza própria. Os fenômenos surgem em decor­rên­cia de ­outros fenô­me­nos. Assim que as cau­sas e con­di­ções que os geraram e os mantém são eli­mi­na­das, todos os fenô­me­nos dei­xam de exis­tir. Dizer que os fenô­me­nos não têm natureza própria é outra forma de afir­mar que seu surgimen­to depen­de de outros fenô­me­nos ou que eles são “­vazios”. É importan­te com­preen­der essas noções bási­cas, por­que elas são fun­da­men­tais à prá­ti­ca budis­ta.

 

Era uma vez um garo­to tolo que viu um peda­ço de ouro no fundo de um lago. Ele mer­gu­lhou para bus­car o ouro, mas, ­depois de muito ­tatear o fundo, o máxi­mo que con­se­guiu foi tur­var a água e se can­sar. Ao sair do lago, sen­tou-se na mar­gem. Quando a água vol­tou a ficar limpa, o garo­to viu o ouro no fundo e de novo se lan­çou à sua busca. Mais uma vez, a água ficou turva, e ele, can­sa­do. Perto dali, o pai do garo­to tolo obser­va­va a movi­men­ta­ção do filho na beira do lago e foi ver o que esta­va acon­te­cen­do. Perguntou: “O que você está fazen­do para ficar tão can­sa­do?”

O garo­to res­pon­deu: “Existe ouro no fundo do lago. Estou mer­gu­lhan­do para ten­tar pegá-lo. É por isso que estou exaus­to”.

O pai olhou para o lago e per­ce­beu: aqui­lo que seu filho pen­sa­va estar no fundo era, na rea­li­da­de, o refle­xo de algu­ma coisa presa em uma árvo­re na mar­gem do lago. O pai disse: “Um pás­sa­ro deve ter dei­xa­do aqui­lo lá em cima”, e man­dou o filho subir na árvo­re para pegar o que ambos viam.

Semelhante igno­rân­cia é o que mos­tram as pes­soas ­comuns. Nas som­bras da não indi­vi­dua­li­da­de, acre­di­tam ver a ima­gem de uma indi­vi­dua­li­da­de. Então, assim como na his­tó­ria, mer­gu­lham tanto para encontrá-la que se can­sam, mas nada ganham com tanto tra­ba­lho.

Sutra das Cem Parábolas

 

A ver­da­de do nir­va­na

Como um dedo apon­tan­do para a Lua, a Terceira Nobre Verdade apon­ta para o nir­va­na. A Terceira Nobre Verdade não é em si o nir­va­na, mas, de fato, nos diz algo sobre ele. Nirvana sig­ni­fi­ca a “ces­sa­ção do sofri­men­to”.

Uma vez que o sofri­men­to é cau­sa­do pela ilu­são, nir­va­na sig­ni­fi­ca tam­bém a cessa­ção da ilu­são. Dado que o sofri­men­to é cau­sa­do pela cren­ça na dua­li­da­de, nir­va­na sig­ni­fi­ca tam­bém ces­sa­ção da dua­li­da­de, ou da cren­ça nela. Nirvana é a ces­sa­ção da crença em um “eu” independente, no nas­ci­men­to e morte desse “eu” e em qualquer coisa per­ma­nen­te e abso­lu­ta em qualquer lugar. Geralmente, o nir­va­na é des­cri­to apenas pelo que não é, por não ser um esta­do de ilu­são. Se per­ce­ber a mente esfor­çan­do-se para for­mu­lar afirmativas sobre o nir­va­na, saiba que foi pre­ci­sa­men­te con­tra esse tipo de des­cri­ções que o Buda diri­giu sua sabe­do­ria e suas defi­ni­ções. O Buda disse que em nenhum lugar exis­te esta­do, nome ou des­cri­ção abso­lu­tos. Acreditar no contrá­rio é ape­nas o iní­cio de uma nova roda­da de racio­cí­nio ilu­só­rio. O nir­va­na é o fim de tudo isso, é a ces­sa­ção da ilu­são e do sofri­men­to.

O Shastra Yogachara-bhumi (Tratado sobre os Estágios da Prática da Ioga) diz: “Estar eternamente livre dos Três Sofri­men­tos é nir­va­na”. De acor­do com o Comentário sobre o Sutra da Guirlanda de Flores: “Nirvana sig­ni­fi­ca ces­sa­ção”. Segundo o Sutra do Grande Nirvana: “A ces­sa­ção de todo o sofri­men­to é deno­mi­na­da nir­va­na”.

Em geral, os budis­tas reco­nhe­cem qua­tro for­mas bási­cas de nir­va­na:

  1. nir­va­na ori­gi­nal;
  2. nir­va­na residual;
  3. nir­va­na não residual;
  4. nir­va­na sem permanência.

 

O nir­va­na ori­gi­nal é tam­bém deno­mi­na­do “nir­va­na ori­gi­nal­men­te puro” ou “nirva­na da pura natureza inerente”. Este nir­va­na é a natu­re­za “ori­gi­nal” ou fun­da­men­tal de todas as coi­sas, é a mente búdi­ca que se encon­tra no cora­ção de tudo.

A expres­são “nir­va­na residual” des­cre­ve o esta­do de um ser ilu­mi­na­do que ainda pos­sui um corpo. “Residual” sig­ni­fi­ca “com corpo”. Um ilu­mi­na­do não cria carma, mas, se ainda pos­suir um corpo, isso sig­ni­fi­ca que vestígios de seu carma pas­sa­do ainda per­ma­ne­cem.

Nirvana não residual é o esta­do do ilu­mi­na­do que não mais pos­sui um corpo. Quando um mes­tre ilu­mi­na­do morre, entra em nir­va­na não residual.

Finalmente, nir­va­na sem permanência des­cre­ve o esta­do de um ser ilu­mi­na­do que pode ­entrar em nir­va­na, mas pre­fe­re não o fazer, por sua com­pai­xão pelos ­demais seres. Este é o esta­do dos gran­des bodisatvas que retor­nam aos mun­dos da exis­tên­cia sencien­te repe­ti­das vezes, para aju­dar.

Os ­sutras budis­tas men­cio­nam tam­bém um esta­do cha­ma­do “ilu­mi­na­ção plena, per­fei­ta e insu­pe­rá­vel”, que é basi­ca­men­te o mesmo que nir­va­na, mas que é nor­mal­men­te defi­ni­do como o “corpo dár­mi­co do Buda” ou como “‘ser um’ com o corpo dár­mi­co do Buda”. O termo “corpo dár­mi­co” tem ­vários sig­ni­fi­ca­dos. Por ora, basta com­preen­der que o corpo dár­mi­co é “o corpo do Buda ilu­mi­na­do”. Como diz o Sutra Shrimala-devi-simhanada (Sutra Rugir de Leão da Rainha Shrimala): “O corpo dár­mi­co é o gran­dio­so corpo do nir­va­na do Buda”.

Nirvana é “o mundo do Darma de todos os Budas”. É o mais pro­fun­do samádi de todos os Budas. É um “paraí­so de pure­za essen­cial” que só um Buda pode per­ce­ber em sua ple­ni­tu­de. De acor­do com o Sutra Lótus: “Somente o Buda compreende a grande bodhi (iluminação). A plena e per­fei­ta sabe­do­ria é cha­ma­da nir­va­na”.

O nir­va­na é a natu­re­za búdi­ca que todos os seres sen­cien­tes pos­suem e sem­pre pos­suí­ram. Quando o Buda se ilu­mi­nou sob a Árvore Bodhi, excla­mou: “Que mara­vi­lha! Que mara­vi­lha! Todos os seres pos­suem a sabe­do­ria e o méri­to do Buda! Só não se aperce­bem disso por causa da ilu­são e do apego. Assim que se liber­ta­rem do pen­sa­men­to ilu­di­do, o conhe­ci­men­to per­fei­to a res­pei­to de todas as coi­sas sur­gi­rá natu­ral­men­te”.

Essa cita­ção evi­den­cia o por­quê de os budis­tas imaginarem o cami­nho da ilu­mi­na­ção como um pro­ces­so de redução e, final­men­te, de eli­mi­na­ção de impu­re­zas. Para os budis­tas, ilu­mi­nar-se é como dei­xar a sujei­ra de um lago assen­tar até que a água se torne per­fei­ta­men­te lím­pi­da; ou como ­nuvens que cobrem a lua serem sopra­das até que o brilhan­te corpo celes­te seja reve­la­do. Passa-se a ver a água e a lua – coi­sas que sempre estiveram ali, mas não podiam ser vis­tas por esta­rem ocul­tas por impu­re­zas. A ilu­mi­na­ção não é compreen­di­da como um acú­mu­lo de fatos e ­ideias, mas como uma fil­tra­gem do racio­cí­nio impu­ro. É por essa razão que os budis­tas fre­quen­te­men­te uti­li­zam metá­fo­ras de algo se assen­tan­do ou desa­pa­re­cen­do para des­cre­ver a forma de se ilu­mi­nar.

O Buda Shakyamuni ensi­nou os Três Selos do Darma para nos aju­dar a eli­mi­nar nos­sas impu­re­zas. Contemplar esses Selos ajuda-nos a supe­rar o apego à ilu­são, por­que eles desar­ti­cu­lam a ilu­são em seus três pon­tos pri­mor­diais. Os Três Selos do Darma ensinam que tudo é imper­ma­nen­te e caren­te de natureza própria. Contudo, ensi­nam tam­bém que a con­tem­pla­ção des­sas ver­da­des não deve levar ao deses­pe­ro por­que tudo está tam­bém em nir­va­na. No Sutra Lótus, o Buda diz: “Ensino os Selos do Darma para bene­fi­ciar os seres sen­cien­tes”.

 

Como Compreender os Três Selos do Darma

Pelo fato de enfa­ti­zar o “vazio”, a “imper­ma­nên­cia” e o “sofri­men­to”, o budis­mo é às vezes visto como uma reli­gião pes­si­mis­ta. O Buda não falou a res­pei­to des­sas ver­da­des fun­da­men­tais por­que fosse pes­si­mis­ta, mas por­que que­ria que todos com­preen­des­sem per­fei­ta­men­te a ver­da­dei­ra natu­re­za da ilu­são. O Buda sabia que bas­ta­ria compreender a ilu­são para que ela per­des­se o pode­ro­so jugo que exerce sobre nós. Vendo a ilu­são como ver­da­dei­ra­men­te é, dese­ja­re­mos que ela “assen­te” ou “cess­e” para que ­níveis de consciên­cia mais ele­va­dos pos­sam aflo­rar. Os Três Selos do Darma não devem ­jamais nos levar ao deses­pe­ro, mas ape­nas nos aju­dar a cres­cer, colo­can­do-nos per­ma­nen­te­men­te além do deses­pe­ro.

 

Apenas com imper­ma­nên­cia é que temos espe­ran­ça

A maio­ria das pes­soas reage ins­tin­ti­va­men­te de forma nega­ti­va ao Primeiro Selo do Darma, pen­san­do que a imper­ma­nên­cia sig­ni­fi­ca ape­nas que “o bom se trans­for­maráem ruim”. Issopode acontecer em ­alguns casos, mas, da mesma forma, “o ruim pode se trans­for­marem bom”. Aimper­ma­nên­cia é uma gran­de fonte de espe­ran­ça, ensi­nan­do-nos que, por mais dura que seja a cir­cuns­tân­cia pre­sen­te, che­ga­rá o dia em que ela muda­rá. Se nos ocu­par­mos em plan­tar boas semen­tes, as mudan­ças que ine­vi­ta­vel­men­te ocor­re­rão serão para ­melhor, e não para pior. A ade­qua­da com­preen­são do con­cei­to de imper­ma­nên­cia pode ser de gran­de ajuda em situa­ções de difi­cul­da­de. Se for­mos pobres, a impermanência ensi­na-nos que nenhu­ma cir­cuns­tân­cia é eter­na. Se tiver­mos um revés pro­fis­sio­nal, a imper­ma­nên­cia ensi­na a não nos deses­pe­rar­. Se pas­sar­mos por adversidades ou tra­gé­dias, a imper­ma­nên­cia pode ensi­nar que um dia tudo muda­rá novamen­te, para ­melhor. A imper­ma­nên­cia nos diz que nada per­du­ra e ensi­na que as mudan­ças são para ­melhor, caso nos esfor­ce­mos para melho­rar nos­sas cir­cuns­tân­cias.

Outro resul­ta­do muito posi­ti­vo que advém de con­tem­plar­mos a imper­ma­nên­cia é que apren­de­mos a valo­ri­zar o que temos. Aprendemos a ser gra­tos por todos os momentos da vida e a uti­li­zar o tempo da forma mais pro­du­ti­va pos­sí­vel. A impermanência obri­ga-nos a com­preen­der que, se não avan­çar­mos no budis­mo hoje, talvez pre­ci­se­mos espe­rar mui­tas vidas para encon­trar o Darma nova­men­te. Dessa forma, somos ins­pi­ra­dos a pro­gre­dir, estu­dar e apren­der, per­ce­ben­do que agora é a hora de agir, pois o momen­to pre­sen­te é o único que temos ao nosso dis­por.

 

O “não eu” nos ensi­na a cooperação

A prin­ci­pal razão de os budis­tas enfa­ti­zarem a inexistên­cia de um “eu” em qualquer coisa é auxi­liar-nos a supe­rar a devo­ção quase feroz que nor­mal­men­te nutri­mos pelo corpo e a cren­ça ilu­só­ria de que o corpo “com­pro­va” a exis­tên­cia de um “eu” abso­lu­to em algum lugar den­tro dele. O amor afer­ra­do ao “eu” é a causa pri­mor­dial da ilu­são, geran­do raiva e cobi­ça e man­ten­do-nos fir­me­men­te pre­sos à igno­rân­cia. A con­tem­pla­ção do Segundo Selo do Darma ensi­na a que­brar o domí­nio desse amor ao “eu”. O corpo huma­no é pro­du­zi­do por con­di­ções e é com­pos­to por nada mais que ele­men­tos físi­cos e men­tais. Quando as con­di­ções levam esses elementos a se reu­nir, um corpo é for­ma­do. Quando essas mes­mas con­di­ções se dispersam, o corpo deixa de exis­tir. Não exis­te “eu” independente ou um “eu” absoluto pre­sen­te no corpo.

Do nas­ci­men­to à morte, muda­mos a cada momen­to. Não exis­te nada que seja eterno ou per­ma­nen­teem nós. Esseconhe­ci­men­to pode ser de gran­de auxí­lio quan­do nos encontramos apri­sio­na­dos em cir­cuns­tân­cias adver­sas. A con­tem­pla­ção da ausên­cia de “eu” independente tem o poder de desar­mar sen­ti­men­tos arrai­ga­dos e dolo­ro­sos que bro­tam da cren­ça equi­vo­ca­da de que pos­suí­mos um “eu eter­no” que pode ser realmen­te amea­ça­do, insul­ta­do ou difa­ma­do.

A Grande Cessação-contemplação (obra em chinês: Mo He Zhi Guan) diz: “Onde não exis­te sabe­do­ria, a memó­ria das pala­vras parece con­ter um “eu”. Con­tem­plando-se esse “eu” com sabedoria, per­ce­be-se que ela é ­irreal”.

Ao pro­cu­rar com­preen­der o con­cei­to de “não eu”, é importan­te não cair na cren­ça errô­nea de que você como pes­soa não este­ja aqui, ou que você não exis­ta. A maio­ria das con­vic­ções e ­ideias budis­tas deve ser com­preen­di­da em pelo menos dois ­níveis dife­ren­tes. Um nível é o cha­ma­do “con­ven­cio­nal” e o outro é o “transcendente”. A ver­da­de do “não eu” permanece, pri­mor­dial­men­te, no nível transcendente, o qual nos ajuda a com­preen­der o mundo con­ven­cio­nal em que pre­ci­sa­mos viver. O mundo convencio­nal é mais ou menos o que todos acre­di­tam que seja. Devemos apren­der a funcio­nar de forma efi­caz neste nível. É neces­sá­rio que cui­de­mos de nós próprios e atuemos como se real­men­te hou­ves­se um “eu” per­ma­nen­te den­tro de nós por­que é assim que nos­sos idio­mas e socie­da­des são cons­truí­dos. Ao mesmo tempo, se sou­ber­mos que, em últi­ma ins­tân­cia, este nível con­ven­cio­nal é cheio de meias ver­da­des e pen­sa­men­to ilu­di­do, nossa capacidade de nele funcionar será grandemen­te expan­di­da. Devemos lançar mão da ver­da­de do “não eu” quan­do esta puder nos aju­dar a com­preen­der a vida, mas ela não deve se tor­nar um pris­ma com o qual distorcemos a vida ou, um pre­tex­to para evitá-la.

Quando ade­qua­da­men­te com­preen­di­da, a ver­da­de do “não eu” ajuda a viver a vida ple­na­men­te por­que dá uma base para a coo­pe­ra­ção com os ­outros seres. O Segundo Selo do Darma nos ensi­na a melho­rar a rela­ção com os outros por­que mos­tra muito cla­ra­men­te que, da mesma forma que somos sus­ten­ta­dos por mui­tas condições, os ­outros tam­bém o são. Assim como pre­ci­sa­mos dos ­outros, eles pre­ci­sam de nós tam­bém. O budis­mo salien­ta a impor­tân­cia de todos os seres sen­cien­tes. O Buda passou 45 anos ensi­nan­do o Darma. Ninguém deve­ria acre­di­tar que a ver­da­de do “não eu” seja um moti­vo para aban­do­nar os ­outros seres e abra­çar uma vida de total iso­la­men­to. Pelo con­trá­rio, o Segundo Selo do Darma deve ser visto como uma razão pri­mor­dial para par­ti­ci­par da comu­ni­da­de e viver ple­na­men­te entre os outros seres que dela fazem parte. Quando vemos “eles” como “nós” e nos vemos como um sim­ples ele­men­to de uma vida muito maior, então, e somen­te então, tere­mos compreen­di­do totalmen­te o Segundo Selo do Darma.

 

O nir­va­na é o refú­gio supre­mo

Muitos acre­di­tam que o nir­va­na pode ser alcan­ça­do, apenas, ­depois da morte, o que não é verda­de. O nir­va­na está além do nas­ci­men­to e da morte. O nir­va­na é a liber­ta­ção de todos os gri­lhões da ilu­são. Estar em nir­va­na é estar além de tempo, espa­ço, dua­li­da­de, ilu­são, medo e sin­gu­la­ri­da­des. O nir­va­na é o refú­gio supre­mo de toda a vida cons­cien­te. O nirvana é sem­pre o mesmo, sem­pre pre­sen­te e sem­pre novo.

Compreender o Terceiro Selo do Darma é com­preen­der tanto a base como a meta da exis­tên­cia cons­cien­te. O nir­va­na é o “eu puro” que bus­ca­mos, é a mente búdi­ca, a ver­da­de cen­tral de todos os ensi­na­men­tos do Buda. Não é neces­sá­rio espe­rara mortepara poder expe­ri­men­tar o nir­va­na por­que ele está sem­pre pre­sen­te em tudo.

 

É tão difícil ver o Buda como enxergar tesouros no escuro; sem luz não podemos vê-los.

Da mesma forma, se ninguém nos ensinar o Darma mesmo sendo muito sábios ainda assim, não o com­preen­de­re­mos.

Sutra Avatamsaka (Sutra da Guirlanda de Flores)

 

Capítulo 8 do livro Budismo Significados Profundos, Venerável Mestre Hsing Yün,
Escrituras Editora, 2ª edição revisada e ampliada, São Paulo, dezembro de 2011.

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