Sabedoria

Quando o Honrado-pelo-Mundo expôs o Darma, apresentou três pontos básicos.
O primeiro é moralidade, o segundo é
samádi, o terceiro é sabedoria.

Mestre Dao’an (312-385)

 O que é a sabedoria?

A palavra do sânscrito para sabedoria é prajña e, em geral, não se traduz. Isso acontece porque a sabedoria prajña é muito diferente do conceito que temos de sabedoria no mundo do samsara, seja em que língua for. Sabedoria prajña é aquela que o budismo considera a mais elevada, constituindo o mais sublime dentre as seis paramitas. Vislumbres da sabedoria prajña levam os seres sencientes à iluminação – algo que seria impossível sem prajña. O Sutra Mahaprajnaparamita diz que “prajña é a mãe de todos os Budas”.

Três formas de cultivar a sabedoria prajña

Os budistas reconhecem três formas de conquistar a sabedoria prajña:

1. Sabedoria alcançada pelo ouvir

Quem tem a boa fortuna de estar próximo de pessoas sábias, que compreendem o Darma, tem a oportunidade de desenvolver prajña ao ouvi-las. É também possível desenvolver a sabedoria lendo sutras e literatura dármica ou assistindo a vídeos e filmes dármicos.

2. Sabedoria alcançada pelo pensar

Depois que se ouve o Darma, faz-se necessário pensar a seu respeito, caso contrário, ele não será de nenhuma utilidade. A sabedoria é uma peculiaridade ou uma condição da mente. Caso não se empregue a mente para sua aquisição, a sabedoria não será alcançada. Nada aprenderá aquele que se recusa a refletir sobre o que ouviu. Através do pensamento, é possível adquirir percepção muito profunda da verdade do Darma. Tudo começa na mente. Quando a mente começa a treinar-se no Darma, nada poderá obstruir seu rápido e alegre desenvolvimento.

O Buda ensinou quatro princípios necessários para distinguir entre verdade e falsidade, ou entre sabedoria e ignorância. Disse ele que nossa compreensão deve (1) seguir o Darma, e não as pessoas; (2) o espírito do Darma, e não as palavras que o expressam; (3) o verdadeiro significado do Darma, e não quaisquer interpretações de seu significado; (4) nossa sabedoria profunda, e não nosso conhecimento superficial.

3. Sabedoria alcançada pelo cultivo

Uma vez tendo desenvolvido a sabedoria por ouvir o Darma e refletir sobre seu significado, devemos começar a praticar o que aprendemos. Muitas vezes, a prática do budismo é chamada de “cultivo”, porque cultivamos a sabedoria e o bom comportamento, da mesma forma que um agricultor cultiva seus campos.

O terreno da interação entre o pensamento e o comportamento constitui o principal campo a ser cultivado. Avança-se no budismo por meio de um processo contínuo de observação do próprio comportamento, que é ajustado para entrar em consonância cada vez maior com a sabedoria do Buda interior. Esse processo de aperfeiçoamento contínuo acaba por produzir a percepção direta da não dualidade e do vazio inerente a todos os fenômenos. Esse é um estado de júbilo.

 

O Sutra Mahaprajnaparamita explica a sabedoria quando Subhuti se dirige a Shariputra da seguinte maneira:

Shariputra, o bodisatva que continuar a estudar dessa forma, gradualmente se aproximará do conhecimento perfeito (sarvajna) de um Buda e gradualmente se tornará puro em corpo, mente e percepção. O bodisatva que é puro em corpo, mente e percepção não mais gera impurezas, raiva, ignorância, orgulho, ganância ou opiniões erradas. Quando o bodisatva não mais gerar nenhuma dessas impurezas, deixará de se tornar um corpo no ventre de uma mulher e, em vez disso, conquistará o corpo de transformação e viajará apenas de um reino búdico a outro, auxiliando os seres sencientes a alcançar a pureza do reino búdico. Finalmente, alcançará o anuttara-samyak-sambodhi, tornando-se uno com todos os Budas.

 

Conforme cresce nossa sabedoria, amadurece também a compreensão que temos dela. Hoje, a sabedoria nos parece uma coisa; amanhã, será algo mais profundo e grandioso. À medida que aumenta nossa capacidade de compreender a profundidade do Darma, valorizamos mais e mais o que ele tem a ensinar. Ao longo desse processo de desenvolvimento, é essencial que o praticante tenha em mente o seguinte: se a moralidade, o samádie a sabedoria não beneficiarem compassivamente todos os seres sencientes, não passarão de mera imitação do real.

O Buda enfatizou os três treinamentos para ajudar-nos a evitar os desequilíbrios decorrentes de cultivarmos só a moralidade, só a meditação ou só a sabedoria. É importante compreender essa questão. A maioria das pessoas costuma se aferrar a uma única ideia religiosa por vez – assim, sua religião baseia-se ora em fé, ora em crença, ora em moralidade. O Buda ensinou os três treinamentos para que superássemos essa tendência de dar caráter unidimensional à nossa vida espiritual. No budismo, a sabedoria é considerada a mais elevada virtude porque somente ela é capaz de compreender a importância de praticarmos os três treinamentos simultaneamente.

 

O Shastra Yogacharabhumi diz:

Quando alguém pratica os três treinamentos, que estágios de crescimento são vivenciados? Primeiramente, o indivíduo se torna puro e bom por meio da prática da moralidade, o que leva à eliminação da ansiedade. Com o fim da ansiedade, ele vivencia uma alegria serena. Com o surgir da alegria serena, começa a experimentar o samádi propriamente dito. Com ele, verdadeiro conhecimento e percepção intuitiva começam a ser adquiridos, o que leva a uma sensação de aversão por tudo o que é falso ou perverso. Tal aversão auxilia o praticante a se desembaraçar das impurezas, o que leva à libertação. A libertação, por fim, leva à realização perfeita no nirvana. Esse é o caminho do crescimento do indivíduo: ele começa cultivando a pureza e a moralidade, que gradualmente o conduzem ao nirvana.

 

No Sutra Mahaparinirvana, o Buda Shakyamuni explica muito bem a importância dos três treinamentos:

O bodisatva Simhanada perguntou ao Buda: “Honrado-pelo-Mundo, o que significa cultivar a moralidade, o que significa cultivar o samádi e o que significa cultivar a sabedoria?”.

O Buda respondeu: “Bons monges, quem aceita os preceitos com o único objetivo de conquistar prazeres celestiais para si próprio, e não para salvar todos os seres sencientes, não estará professando o Darma supremo. Quem age apenas em benefício próprio, ou por medo de cair nos mundos inferiores da existência, ou para que sua vida transcorra de modo fácil e agradável, ou por temor às leis comuns ou porque teme causar danos a sua reputação, estará agindo simplesmente em função das preocupações imediatas da vida neste mundo. Observar os preceitos dessa maneira não constitui cultivo verdadeiro.

Bons monges, o que caracteriza o verdadeiro cultivo dos preceitos? Aquele que cultiva os preceitos com a finalidade de salvar todos os seres sencientes e proteger o verdadeiro Darma e salva quem não foi salvo, liberta quem não foi libertado, guia para o nirvana aqueles que não o conhecem sem ao menos ter em mente os preceitos ou a forma dos preceitos, sem ter consciência de que os está praticando, sem sequer lembrar de recompensas potenciais e sem se deixar seduzir por forças inferiores – isso, sim, bons monges, é o que se denomina cultivar os preceitos.

E o que é cultivar o samádi? Se uma pessoa cultivar o samádi com o objetivo exclusivo de conquistar libertação ou benefício para si própria, e não para o bem de todos os seres sencientes e pela proteção do Darma, ela não estará verdadeiramente cultivando o samádi. Caso sua motivação seja ganância, luxúria, apego à comida ou qualquer outra transgressão desse tipo, não estará verdadeiramente cultivando o samádi. Os nove orifícios do corpo, tanto masculino quanto feminino, não são limpos. Cultivar o samádi com o objetivo de lutar ou matar não é cultivar o verdadeiro samádi.

Bons monges, o que é o verdadeiro cultivo do samádi? Se o samádi for cultivado para o bem de todos os seres sencientes, e se a equanimidade for alcançada entre os seres sencientes com o objetivo de auxiliá-los a conquistar o Darma sem risco de regressão e para auxiliá-los a desenvolver uma mente pura; com o objetivo de ajudá-los a alcançar o caminho maaiana e de proteger o Darma supremo; com a intenção de ajudar os seres sencientes a alcançar a mente bodhi sem regressão e de auxiliá-los a alcançar o samádi shurangama e o samádi diamante; com o propósito de ajudar os seres sencientes a conquistar a dharani e os quatro estados ilimitados da mente; com o objetivo de auxiliá-los a ver sua natureza búdica e se, enquanto isso, o samádi não for percebido nem tampouco sua forma, ou aquele que o cultiva, ou suas potenciais recompensas, bons monges, quem conseguir agir dessa forma estará verdadeiramente cultivando o samádi.

E em que consiste o cultivo da sabedoria? Se o praticante pensar: “Se cultivar a sabedoria apenas para mim mesmo, logo alcançarei a libertação e transcenderei os três planos inferiores da existência. Ninguém poder auxiliar de fato os seres sencientes e ninguém pode realmente salvar todas as pessoas do ciclo de nascimento e morte. O aparecimento de um Buda é tão raro quanto uma flor udumbara. Se eu conseguir ao menos eliminar meu próprio apego ao sofrimento, decerto conquistarei a recompensa da libertação. Assim sendo, vou buscar a sabedoria para superar o sofrimento e rapidamente obter a libertação”, ele não estará cultivando verdadeiramente a sabedoria.

E o que é o cultivo da sabedoria? Aquele que contempla que os seres sencientes são ignorantes e estão presos na armadilha do ciclo de nascimento, envelhecimento, morte e sofrimento, se dá conta de que eles não sabem como praticar o caminho supremo e, devido a essa percepção, é levado a fazer o voto de utilizar o corpo que possui nesta vida para ajudá-los em suas dificuldades – essa pessoa, sim, estará cultivando a verdadeira sabedoria. Os seres sencientes são fracos, ambiciosos, imorais e ignóbeis. Quem estiver disposto a assumir em seu próprio corpo esse carma de ganância, raiva e ignorância; a auxiliá-los a superar a ganância e seus apegos aos nomes e formas; a ajudá-los a se libertar do ciclo de nascimento e morte; e, para tanto, estiver disposto a utilizar o corpo da forma que for necessária e jurar guiar todos os seres sencientes ao anuttara-samyak-sambodhi; e, ao fazer tudo isso, não perceber sabedoria, ou forma da sabedoria, ou o praticante da sabedoria, ou nenhuma potencial recompensa, esse será o verdadeiro cultivo da sabedoria.

Bons monges, quem cultiva a moralidade, o samádi e a sabedoria desse modo é um bodisatva, ao passo que quem não consegue cultivar a moralidade, o samádi e a sabedoria dessa maneira é somente um shravaka.

 

Do livro Purificando a Mente – A meditação no Budismo Chinês,
Venerável Mestre Hsing Yün, Editora de Cultura, São Paulo, maio de 2004.
REV290413

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